Sobreviventes estiveram duas horas na água à espera do Salvador
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Lágrimas nos olhos, dor no coração e corpo ainda não refeito das quase duas horas metido na água à deriva, agarrado a uma tábuas e a uma bóia, à espera que alguém o salvasse, Vítor Santos, 59 anos, era ontem o único dos cinco tripulantes do “Vimar” que podia contar a história do naufrágio da embarcação. Um outro companheiro e mestre da traineira afundada, António Alonso Santos, 45 anos, salvou-se com ele, mas o seu estado emocional e físico tinha-o ontem completamente apartado do triste cenário das buscas aos restantes pescadores desaparecidos. Nas praias de Moledo e Camarido, que durante todo o dia tiveram gente de olhos postos nas águas esquadrinhadas por helicópteros e barcos da Marinha, entre curiosos, colegas, amigos e familiares dos homens que o mar atraiçoou, só apareceu são e salvo o Vítor. Cunhado do único pescador encontrado, morto, Manuel José Vasconcelos, 46 anos, e de um dos desaparecidos, Fernando Rui Vasconcelos, 45 anos, o sobrevivente responde com um “estou um bocado coiso, mas estou bem”, a quem o interroga, e resume a situação em poucas palavras: “Falta o Alfredo do ´Viriato’ e o Rui. Eu e o ‘Tone’ salvamo-nos, os dois”.
Salvador Passos, 61 anos, fez ontem mais que nunca jus ao seu nome de baptismo, ao resgatar das águas geladas do Minho os dois sobreviventes. “Estavam a contar que eu viesse aquela hora para baixo, que os calhasse encontrar e encontrei-os na água agarrados a uma bóia e a duas tábuas. Levamo-los para terra e ainda voltamos para ver se encontrávamos mais algum, mas não vimos mais nada. Só umas caixas e umas bóias, do barco nada”, conta o autor do salvamento, proprietário da embarcação “Rumo à Senhora da Saúde”, que diz já ter saído de casa “com um pressentimento que havia azar”, depois de ter tentado em vão entrar em contacto por telemóvel com o ‘Tone”, mestre do barco afundado.
“Sabíamos que o Salvador vinha para o mar às cinco da manhã, aguentamos um bocado, fomos pelo rio acima (a maré a encher arrastou-os para dentro da foz) e depois com a vazante já íamos outra vez para o mar. Quando vimos o Salvador aliviamos, foi um ‘ai’ como se costuma dizer”, contava ontem Vítor Santos, anda mal refeito dos momentos passados na escuridão ao sabor das águas. “Aguentei porque me agarrei a qualquer coisa e porque tenho mulher e filhos. Os filhos já estão criados, mas tenho a minha mulher Ana que é a minha amiga”, diz, engolindo as lágrimas. Emociona-se, mas vê-se que luta para se manter firme: “A vida é feita para se lutar, não foi feita para se desperdiçar, embora às vezes se chegue ao limite do esforço e da vontade. Nós aguentamos. Aguentamos porque estávamos os dois também, porque se estivéssemos sozinhos não sei se aguentaríamos”.